O conforto de uma canja pela manhã é um costume local intemporal. No Estabelecimento de Comidas de Canja Seng Kei Pak Chok, marca centenária, continua-se a poder saborear o pequeno-almoço ao estilo cantonês de forma tradicional: simples, artesanal e… barato
Texto Vitória Man Sok Wa
Fotografia Cheong Kam Ka
Macau é uma cidade que se reinventa a cada esquina, mas há recantos onde o tempo parece suspenso, guardando memórias, tradições e sabores do passado. Entre esses refúgios de autenticidade, está o Estabelecimento de Comidas de Canja (Loja de Sopa de Fitas) Seng Kei Pak Chok, negócio onde corpos e almas se alimentam na simplicidade reconfortante de uma tigela de canja (ou “congee”).
O negócio ostenta hoje o título de “Marca Típica de Macau”, uma iniciativa promovida pelo Governo em conjunto com associações comerciais locais. Além disso, integra também o programa “Lojas com Características Próprias”, promovido pela Direcção dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico (DSEDT).
No mês passado, o estabelecimento ganhou mais uma distinção. Integrou o lote inaugural de dez empresas às quais foi atribuído o título de “Marca Centenária”. Trata-se de uma nova iniciativa organizada pela DSEDT em conjunto com a Macau Chain Stores and Franchise Association, visando valorizar o património empresarial local.
Para a casa de canjas, tudo começou na década de 1920, quando Leong Seng, carpinteiro de profissão, decidiu trocar as madeiras pelos tachos. A influência de um amigo ligado à restauração, com quem aprendeu as lides da cozinha, despertou-lhe o interesse pelo sector. Lançou-se então como vendilhão, na zona do Patane, na península de Macau, carregando ao ombro os seus petiscos e vendendo-os de forma ambulante.
Na ressaca de um levantamento popular em Maio de 1922, o negócio foi transferido para uma banca de rua no bairro de San Kio. Quando chegou o momento de oficializar a licença, uma questão de transliteração para português levou ao registo definitivo do nome “Seng Kei Pak Chok”, que permanece até hoje.
Em 1937, já com 45 anos, Leong Seng lançou finalmente o seu primeiro estabelecimento de comidas de pedra e cal, mantendo-se pelo bairro de San Kio. No rescaldo da Segunda Guerra Mundial, o filho Leong Iong Kan herdou o negócio e, com a esposa, manteve viva a chama. Nos anos 1980, coube a Leong Heng U receber o restaurante das mãos do pai.
Na década seguinte, a casa de canjas Seng Kei Pak Chok inaugurou a sua primeira filial, localizada na Avenida do Almirante Lacerda. O desenvolvimento social e urbano verificado após o retorno de Macau à Pátria, em 1999, abriu caminho para mais crescimento. A marca conta hoje com cinco lojas: o estabelecimento na Avenida do Ouvidor Arriaga, as unidades na Rua dos Cules, na Areia Preta e no bairro Tamagnini Barbosa, todas na península, e uma outra na Taipa.
Devido a essa expansão, surgiu a necessidade de modernizar a produção. Foi criada uma fábrica na zona do Fai Chi Kei, funcionando como cozinha central. Esse modelo, explica o proprietário, permite garantir a uniformidade dos produtos e responder a uma maior procura, sem perder o carácter artesanal que sempre distinguiu a marca. Hoje, o grupo emprega mais de 60 pessoas.
O segredo está na canja
O nome indica a estrela da casa: no Estabelecimento de Comidas de Canja Seng Kei Pak Chok, brilha mais alto, claro está, a canja. Preparada em fogões tradicionais a lenha, é cozinhada lentamente durante horas. O arroz, mergulhado na água a ferver, desfaz-se pouco a pouco até se transformar numa textura cremosa e suave.
“Mesmo depois de apagar o fogo, o calor continua a actuar, dando à canja uma suavidade única”, explica Leong Heng U. “Fazemos sempre a canja fresca, para que as pessoas possam saborear o caldo acabado de preparar.”
O actual proprietário gosta de notar a importância dos detalhes. “Há quem diga que basta uma pequena pitada de sal para transformar completamente a experiência. Primeiro prova-se a canja, sente-se o seu perfume, e só depois se acrescenta o tempero. É quase como uma cerimónia.”
Uma das imagens de marca do negócio é a autenticidade: pratos simples, sem artifícios, de qualidade artesanal, comercializados a preços acessíveis. As receitas actuais seguem os mesmos princípios de há um século, com pequenas modernizações para responder às necessidades de produção em grande escala, mas sem perder a essência tradicional.
“Nunca quis vender nada demasiado complexo, porque a Seng Kei sempre foi associada à simplicidade e a preços acessíveis”, explica Leong Heng U. “Essa imagem é algo que espero preservar. Se acrescentarmos demasiados itens modernos, os clientes podem sentir que o carácter da casa mudou por completo.”
O proprietário elabora: “Queremos manter a impressão que as pessoas sempre tiveram da Seng Kei. Os clientes procuram a Seng Kei de antigamente, não uma versão reinventada. Por isso, mesmo as adições que fiz foram sempre doces tradicionais ou canjas, nunca pratos excessivamente modernos ou diferentes.”
Assim, hoje, além dos produtos tradicionais – como a canja, a bebinca de nabo, os bolos de arroz com carne ou os rolos de arroz –, o negócio passou a oferecer outras especialidades. Entre elas, destacam-se o pudim de tofu com manga e a sopa de sagu.
Leong Heng U sublinha também a questão da acessibilidade. “Na mente das pessoas, a canja da Seng Kei é algo barato. Se aumentarmos o preço, mesmo que ligeiramente, os clientes sentem logo que ficou caro. Por isso, a nossa única opção é reduzir constantemente as margens de lucro, ter apenas o suficiente para pagar a renda, os salários e ganhar um pouco. É desta forma que sempre trabalhámos.”
Entre locais e turistas
No passado, quando havia menos oferta em Macau, o pequeno-almoço ao estilo cantonês do estabelecimento Seng Kei Pak Chok possuía uma clientela fiel, composta por estudantes, empregados de escritório e pais que levavam os filhos à escola. Mais do que um restaurante, era parte de uma rotina diária.
Porém, a história é hoje diferente. A multiplicidade de escolhas e a popularidade das cadeias de “fast food” levam muitos dos mais novos a procurar opções fora da gastronomia tradicional. O negócio adaptou-se à nova realidade e continua a atrair muitos clientes regulares locais, mas agora também turistas vindos de Hong Kong, de Taiwan e do Interior da China.
Muitos visitantes descobrem a casa de canjas através de reportagens ou das redes sociais. Nos espaços da Rua dos Cules e na Taipa, a presença de turistas é maior, enquanto nas restantes lojas predominam os clientes de Macau. O proprietário afirma que os visitantes do sul do Interior da China apreciam os sabores artesanais do negócio, enquanto quem vem das zonas mais a norte prefere os pratos de tempero mais intenso.
Para Leong Heng U, faz sentido a um turista visitar o Estabelecimento de Comidas de Canja Seng Kei Pak Chok. Afinal, conhecer uma cidade começa pelo essencial e isso pode ser um pequeno-almoço tradicional simples, com uma tigela de canja e um pedaço de bolo de nabo.
Muitas das memórias de infância de Leong Heng U estão associadas ao negócio. “Antigamente, os empregados viviam no andar de cima e, nas festas tradicionais – como o Ano Novo Chinês ou o Solstício de Inverno –, todos se reuniam para jantar juntos. Os clientes habituais tornavam-se parte da família, numa relação de proximidade que hoje já raramente se encontra”, recorda com nostalgia.
Ainda assim, a ligação afectiva entre a comunidade e o negócio continua a inspirar novas gerações. Recentemente, uma escola local convidou-o para uma cerimónia especial, depois de os seus alunos terem escrito redacções sobre o restaurante. Num dos textos, um estudante descrevia como, para os habitantes de Macau, no meio do ritmo intenso de trabalho e exames, a Seng Kei Pak Chok representava um refúgio, onde um prato simples e saboroso proporcionava um momento de descanso e encorajamento para recomeçar a rotina. “Essas palavras dão-me força para continuar, mesmo nos momentos difíceis”, confessa Leong Heng U.
Quanto ao futuro, o responsável, hoje com 62 anos, admite alguma incerteza. “Não sei se os meus filhos vão assumir a Seng Kei. Estão a trabalhar noutros sectores e, por agora, não demonstram grande paixão pelo negócio. Talvez daqui a dez anos possamos decidir o que fazer.” Ainda assim, garante que, enquanto tiver forças, continuará a preservar o legado de qualidade e tradição que herdou do avô e do pai.